Entre o circo e a melancolia – em memória de Nelson Xavier

O encontro do jovem Nelson Xavier com os artistas do Teatro de Arena, no fim dos anos 1950, promoveu uma não-especialização que foi a marca de sua atitude de ator, a despeito de sua identificação posterior com figuras como Lampião ou Chico Xavier. Mas que outro ator poderia se orgulhar685069-640x430-1 dessa associação a personagens tão emblemáticos das contradições do Brasil? Continue lendo “Entre o circo e a melancolia – em memória de Nelson Xavier”

Anatol Rosenfeld fez toda uma geração aprender a pensar

O alemão Anatol Rosenfeld (1912-1973) ajudou muita gente a pensar por conta própria. Ainda hoje, é o crítico teatral mais importante na formação dos artistas de minha geração em São Paulo. Depoimentos dos que o conheceram dizem que a mesma independência dos seus notáveis escritos marcava a prática do professor: preferia dar aulas em casas de amigos a manter vínculos institucionais que pusessem em risco sua autonomia intelectual.
A distância que mantinha das normatizações filosóficas era semelhante à aversão que tinha em face de qualquer instrumentalização do homem.

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A metafísica do “contemporâneo” em arte

Há mais de 30 anos, parte do teatro considerado experimental reproduz diversos padrões formais, numa espécie de cartilha gasta de recursos cênicos. Como justificativas ou legitimações desses estilemas, foram construídas diversas supostas teorias, quase todas elas amparadas na recusa pós-estruturalista à racionalidade. As teorias, na verdade arrazoados poéticos, variam nos termos chave (“paisagem de sonho”, “dinâmica volitiva”, “não-duplicação”, “anti-mimético”, “performatividade”) conforme o autor que fundamenta a condenação das “grandes narrativas”.  Mas têm um fundo comum: o culto idealista à chamada PRESENÇA, entidade abstrata que palpita no seio de outra sentença feita – a necessidade de uma “arte contemporânea”. Continue lendo “A metafísica do “contemporâneo” em arte”

Uma conversa sobre crítica

DANIELE AVILA – Eu queria te fazer uma pergunta sobre crítica. Acho que o trabalho de vocês pode ser associado aos termos “político” e “pedagógico”, de alguma maneira. E por isso talvez você possa me ajudar a pensar sobre isso: em que medida a crítica pode ou deve ser pedagógica? E o que falta, ou faltaria – eu tenho a impressão de que falta – para a crítica ter uma dimensão política forte?

SÉRGIO DE CARVALHO – Eu tenho uma relação contraditória com a crítica teatral. Eu fui crítico de jornal, de O Estado de São Paulo, por um período curto nos anos 90. Por uns dois anos eu escrevi crítica. Como eu já era dramaturgo, eu evitava espetáculos de São Paulo, escrevi mais sobre montagens de fora. Dou aula ainda hoje na USP na área de crítica. E a Companhia do Latão é um grupo de teatro que tem uma trajetória de briga com críticos. Continue lendo “Uma conversa sobre crítica”

Fragmento sobre Jacobbi

Por muito tempo de sua vida, Ruggero Jacobbi  pensou que era “alguém de passagem, alguém provisório” no teatro. Vindo das letras, da estética filosófica, do interesse por cinema, ele demorou a se reconhecer no  mundo das coxias, dos atores, e das expectativas do público. Mundo, de qualquer modo, sempre estranhável. Foi, entretanto, graças a essa atitude de inadaptação, no que ela tem de recusa às eternizações (tendência que atuava nele como uma qualidade distanciadora das coisas prontas), que Jabobbi contribuiu – talvez mais do que ninguém – para a radicalização crítica do moderno teatro brasileiro. Continue lendo “Fragmento sobre Jacobbi”

Atitude modernista no teatro brasileiro

A história do teatro brasileiro do século XX registra pelo menos três ciclos de politização da prática teatral. São momentos em que a produção artística mais experimental assume uma orientação crítica de sentido extra-estético, em que predomina o interesse na participação em debates públicos, em que várias experiências isoladas passam a se conjugar em torno da tomada de posições coletivas diante de processos históricos. Continue lendo “Atitude modernista no teatro brasileiro”

Encontro com Lauro César Muniz

Encontro de trabalho (nos dias 16 e 17 de agosto) com Lauro César Muniz, na Companhia do Latão. Ele nos explica seus anos de aprendizagem com Augusto Boal, entre 1961 e 1962, quando tomou contato com o método de escrita que o Arena desenvolveu antes do golpe militar. Boal estruturou, a partir de seus estudos sobre drama nos Estados Unidos, e das experiências anteriores de cursos laboratoriais do Arena e Seminário de Dramaturgia, um método pedagógico, baseado na dialética hegeliana de explicação da técnica dramática. Lauro César expôs o princípio em dois encontros com nosso grupo. Participaram alguns convidados:  artistas que em outras circunstâncias nos procuraram para estudar dramaturgia. Continue lendo “Encontro com Lauro César Muniz”

Gerd Bornheim foi espectador ideal

Dentre os filósofos brasileiros, Gerd Bornheim foi o mais querido pela gente de teatro. Tinha como ninguém o prazer do espetáculo, a admiração pela forma transitória da cena, por uma ficção condicionada à presença física dos atores.

Tinha também um gosto muito pessoal pela crise. Pelo teatro como experiência crítica, em que os valores não estão mais dados. E tudo precisa ser construído na relação entre o palco e a platéia. Continue lendo “Gerd Bornheim foi espectador ideal”