Monan Piririguá (primeira versão)

villadaconceicao1

Piririguá Obyg tinha 130 anos quando o missionário da Companhia de Jesus o procurou no aldeamento de Itanhaém. A pele enrugada do velho tupiniquim sobrava nas costelas e coxas, mas não no rosto descarnado. Portava adornos descoloridos da virtude guerreira antiga. Foi um homem principal, disso sabiam todos, e não só o prestígio, mas o corpo magro e riscado fascinara o jesuíta.

Piririguá Obyg sentiu que lhe tapavam o sol e mal distinguiu o vulto ou discerniu a voz do jovem interessado no resgate de sua alma. Alma índia arcaica, túnica sobre a qual já não se imprime quase nada.

“Quero batizá-lo!”, disse o missionário, “fazê-lo cristão, para que seu ser não se perca após a derrocada da carne”. “Sua vida é sem querelas, contam-me os que lhe conheceram.” “Há muitas décadas é aliado dos nossos.” “E já se gastou a memória dos seus feitos mais remotos.” “Ensino-te a necessária doutrina – já o tratava por tu – e estarás salvo.”

Ao sentir na mão um aperto forte, Piririguá sorriu como fazia sempre com os brancos amistosos. E soprou da boca trêmula palavra de concordância, interpretada pelo jesuíta como um indiscutível “sim”.

Então, todas as manhãs, o moço ia a Piririguá. Descia a colina da igreja levado à tapera pela tarefa de soprar no coração do gentio uma sabedoria nova, que o animasse na outra vida. A começar pelo fundamento: “É só um o Deus poderoso, criador de todas as coisas. Ele ressoa para além do Trovão-Tupã, deslocador das águas e dos raios. Em sua unidade, ele é Pai, Filho e Espírito.”

No primeiro dia da conversão, o jesuíta se admirou muito da prontidão do velho em repetir lições e temas que na língua brasílica pouco cabiam. A expressão Espírito Santo, entretanto, não houve meio de traduzir. A dupla geração da divindade, Piririguá demonstrava aceitar, mas o terceiro nome da Trindade nunca se formou em sua boca.

A cada dia de trabalho, o jesuíta mais se entusiasmava. Havia claros sinais de uma mística fusão entre o receptáculo pagão e o líquido sagrado. Era como se Deus dilatasse no velho, ouvidos, pupilas e o próprio decurso da jornada, para que sua verdade se cumprisse.

Em algumas semanas Piririguá era capaz de recitar os mistérios cruciais da Encarnação e Ressurreição. E os virginais: Concepção, Assunção, Ascensão, “termos parecidos para coisas diferentes”, demonstrava o jesuíta com gestos, confiante.

E mais ainda lhe pasmou ver Piririguá perguntar, não sem labial dificuldade, sobre detalhes de certas figuras da cristandade. Pedia que repetissem as particularidades, sempre algo abstratas, enunciadas nos milagres. E foi nesse instante de indagação, que o velho Piririguá ficou mesmo maior aos olhos do jovem catequista. “Orgulho-me, mais do que nunca, de ti. Teus netos e filhos, todos cristãos convertidos, jamais hesitaram nas partes. Por isso te digo, Piririguá Obyg, és bem alheio dos outros índios com que tratei nessa imensa costa, pois eles não sabem duvidar, e assim ignoram o verdadeiro aprender.”

Piririguá estava pronto. “Será amanhã”, avisou o jesuíta.

Em sua rede, naquela noite, véspera do batismo incomum, Piririguá foi visitado em sonho. Era uma representação de Monan, sujeito mítico supremo, sem fim nem começo, o Velho-Monan, origem de todo o tempo. E ele viu Monan-Antigo entre os homens, de enorme cabeleira cinza, andar entre as tribos que outrora lhe davam honras e abrigo e prantos intensos de alegria. E viu Monan-Eterno ser desprezado e humilhado. Mais do que a recusa, por que o esquecimento? E Monan perambulou sua velhice absoluta até erguer-se e pairar no alto, de onde melhor contemplava a vida desordenada e ingrata, e a proximidade sem contato. E no sonho de Piririguá se avistavam pedaços de armas e mantos, cordas roídas, balas de canhões dos brancos, flautins de ossos quebrados, uma terra esfarelada depois da batalha. Pairando sobre a paisagem, Monan-Celeste subiu ao seu ponto mais alto, e ao atingir o supremo da ira, despejou Tatá-Fogo sobre todo o mundo. E o mais foi correria e labaredas e dor. Piririguá soube que só um homem seria salvo. Talvez o tenha visto no meio da luz. E acordou.

Na manhã do seu batismo, foi conduzido à capela por seus netos. À frente deles caminhavam alguns noviços. Sustentava-se num bordão. Seus pés amortecidos, com firmeza, venciam as pedras ásperas da colina ao colégio. “Veja o velho”, apontava o jesuíta da janela, “a alma sequiosa de Deus anima os membros encarquilhados.”

Piririguá incensado, foi assentado numa cadeira ao transpor a porta. Arfava, fixava o nada. Não disfarçavam o riso os curumins-cristãos. Ele inalava a fumaça do rito, ouvia o passo coral dos jesuítas contritos. E soube responder à pergunta acordada: “O que queres, Piririguá?”

“Ser batizado”, recitou rápido o velho. Então, sem que lhe fosse perguntado, acrescentou de modo pouco compreensível: “Pela noite toda vi a ira dele. E vi como vai viver a outra geração.”

O jesuíta responsável, concentrado na prática, sem dar pelas palavras murmuradas, fez-lhe os exorcismos devidos. Após o tremor do magro rosto antigo ao contato da água abençoada, felicitou o seu velho-menino.

Piririguá compreendeu o sentido do momento. Pôs-se de pé e começou a chorar, a esfregar os olhos e mais chorar. Diziam-lhe os muitos presentes: “Alegra-te, és de novo nascido.” E fizeram com que se sentasse, para que se acalmasse. E como um símbolo se comportasse.

Imóvel, por trás da vista embaçada, Piririguá enxergou seus pais e avós, conchas e barcos, e intuiu a presença do Fogo-Incêndio-Tatá.

Então, no controle pleno de seu esforço, ergueu-se e falou limpidamente: “Ele venceu a morte e subiu ao céu. Muito irado, há que ter muita ira. Para queimar o mundo todo e destruir todas as coisas.”

Do fundo da igreja respondeu num grito de êxtase o jesuíta: “Deus verdadeiro é Jesus. E você está nele, Piririguá. E havemos de ressuscitar todos.” E comandou, orgulhoso, um cântico final para a cerimônia.

Piririguá Obyg, conhecido por sua vida sem querelas, tupiniquim de feitos guerreiros, em toda a existência amigo dos portugueses, adormeceu naquela noite com nome cristão. Na hora de sua morte, meses depois, a voz-vontade de Monan, o Velho, ainda soava em seu ouvido: “a grande ira.”

(Publicado originalmente em Traulito número 02, Edições do Latão. Disponível também na edição eletrônica www.traulito.com.br)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *