Encontro com Lauro César Muniz

Encontro de trabalho (nos dias 16 e 17 de agosto) com Lauro César Muniz, na Companhia do Latão. Ele nos explica seus anos de aprendizagem com Augusto Boal, entre 1961 e 1962, quando tomou contato com o método de escrita que o Arena desenvolveu antes do golpe militar. Boal estruturou, a partir de seus estudos sobre drama nos Estados Unidos, e das experiências anteriores de cursos laboratoriais do Arena e Seminário de Dramaturgia, um método pedagógico, baseado na dialética hegeliana de explicação da técnica dramática. Lauro César expôs o princípio em dois encontros com nosso grupo. Participaram alguns convidados:  artistas que em outras circunstâncias nos procuraram para estudar dramaturgia. A tranquilidade e gentileza do expositor como que se confunde ao assunto: a técnica dialética exige uma “calma épica”. As coisas têm seu tempo de desenvolvimento até que as transformações sejam possíveis. São princípios aparentemente simples, mas vê-los expostos como se fossem ferramentas de um artesão, ajuda a compreender o trabalho teatral de uma época. O método de Boal-Muniz é uma síntese que se assemelha à explicação que Engels dá sobre a ciência da mobilidade de Hegel. Num primeiro nível, as contradições gerais entre A e B, duas personagens, ou dois grupos de personagens se dão como unidade em torno de um campo ou problema comum. Não se trata só do conflito de vontades opostas. A e B estão numa unidade contraditória em torno de uma questão comum, em interação problemática, na medida em que existem também contradições internas de lado a lado: “A” não é uma identidade fechada, trava uma luta interna que dificulta sua ação com B, e vice-versa. Nos termos do mundo do Drama pré e pós burguês, isso pode ser lido como hesitação, contra-vontade ou contra-dever, até a conquista da decisão. O processo se dá em etapas. Segundo a terminologia clássica da dialética, ocorrem as variações quantitativas da interação. Em um determinado momento em que quantidade se faz qualidade, o salto transformador: a variação qualitativa. O pressuposto desse esquema de compreensão dinâmica das interações entre as personagens provém de Hegel: a “árvore que está aí e cresce” também realiza, em suas determinações, sua morte. “Toda determinação é uma negação” registra Engels no Anti-Duhring, repetindo Spinoza. Essa dialética do drama, como nos mostra Lauro César, não tem alcance universal, mas ajuda a compreender muita coisa boa e ruim na tradição hegemônica do drama ocidental. Descrita assim, apartada de conteúdos críticos, de temas históricos, pode se converter numa fórmula que no máximo serve de antídoto dinamizador à visão estática de certa cena lírica pós-dramática.  Mas a geração de Lauro César estava interessada num Brasil popular, em ritmos anticapitalistas, o que impedia qualquer afastamento formalista das vibrações do mundo. Hoje, os problemas de assunto precisam ser repostos (concretamente, para que os automatismos se tornem perceptíveis) se pensarmos numa pedagogia da arte crítica, contra a má-infinidade do valor de troca esteticista. Não importa só produzir contradições, precisamos saber de que tipo são elas, para onde nos conduzem. No segundo dia de trabalhos, examinamos o quanto Brecht se utilizou desse padrão dramático para, dialeticamente, negá-lo.

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