A uma estudante de jornalismo

Você me pergunta sobre o jornalismo cultural de hoje. De que formas a mercantilização se dá? Ela se dá, como em todo lado, pela estrutura do trabalho e pela naturalização da cultura do capital. Qualquer editor de um grande jornal julga evidente que uma comédia romântica hollywoodiana tem mais importância do que um filme brasileiro de caráter experimental. Mesmo que este tenha um aval crítico internacional, dado por sua repercussão em festivais de renome. O critério de valor naturalizado se funda na “quantidade potencial de consumidores”. Quem tem condições de maior circulação mercantil é mais relevante do ponto de vista da pauta. Como justificativa surge uma patética metafísica do público. Dizem esses senhores: “Mas é isso que o público quer! O jornal apenas reage às tendências do gosto dominante.” O espectador (para não dizer o cidadão, o ser humano etc.) é reduzido à função consumidor, descrito em perspectiva abstrata e quase religiosa. E o jornalismo se põe na falsa condição de quem não pode influir no debate. A incidência de temas como sexo, violência – e tudo aquilo que interessa na medida em que expõe o proibido ou recalcado – se revaloriza na medida em que têm atrás de si um grande circuito exibidor. Não adiante nenhum jovenzinho idealista no fundo da redação lembrar que o valor estético da Nona Sinfonia independe da quantidade de discos vendidos. Ou que o jornal participa da dimensão pública da cultura. Está doido? Esse mundo, ou pelo menos esse discurso, acabou. As constelações antigas despencam sob o signo do valor de troca. Todas as formas e processos culturais passam a ser compreendidos segundo a perspectiva do produto cultural destinado ao mercado: importa a novidade (a estréia); importa a eleição de novos artistas-mercadorias; importa a indicação do consumo fácil, ou a apresentação das tendências do consumo internacional. Já não interessam o trabalho vivo das pessoas, os processos de longo prazo, a dimensão pedagógica, histórica ou realmente crítica. As próprias formas da escrita manifestam a unidade do projeto: textos de lançamento dos produtos surgem todos nas mesmas datas, com as mesmas fotos, pautados pelas mesmas assessorias de imprensa, que negociam com os editores o suposto furo numa constante troca de favores; predomina o tom publicitário na cobertura informativa, contrabalançado pela manifestação de agrado hedonista ou de enfado de algum sujeitinho autorizado. A velha referência aos gêneros continua vivíssima: comédias, dramas, terror, são categorias que organizam as prescrições dos juizinhos. Os conceitos do teatro comercial do século 19 migraram para a indústria da representação que, por sua vez, ensinou a seus propagandistas a difundir a adequação entre modelo formal e efeito de consumo. O pobre do jornalista do fundo da redação, aquele das “ilusões perdidas”, ao perceber o processo, se vê coagido por ele, como o inseto que flutua na maré. Deve negociar com as pautas estúpidas que recebe. Deve enquadrar seu objeto nas trinta linhas previsíveis, escritas de um dia para o outro, com base num telefonema e num press release, e atender às expectativas das normas mais ou menos explícitas das redações. Tudo isso porque, se não participar do processo das abstrações, irá submergir ou ser expelido. Em pouco tempo aprende que sua desumanização corresponde a seu fortalecimento. 

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