Fala ao dramaturgo (um esboço)

ATOR – Por que tanta dificuldade em objetivar as coisas? Estou aqui, senhor D. Sou pago para ajudá-lo. Só percebi isso há pouco tempo. Mas minha contribuição é grosseira. Eu não diria como tantos: “Lave um tanque de roupa suja”. Eu sei que seu trabalho não é apenas espiritual, dá suadeira na madrugada, pesadelos, refluxos do jantar tardio. Sem nenhum moralismo preciso dizer: “Há quanto tempo não anda pelas ruas? Não conversa com mutilados?” “Não se aprende tanto com isso”, você pode responder. Mas como atuar além da abstração: a imagem precisa? Meu corpo está aqui, disponível, à espera. Se já não interessam homens e coisas, então para que precisa de nós? Faça o senhor mesmo o papel – a desfiguração. Ou a crítica da peça não escrita. Vai continuar quieto? Peça ajuda. Não é preciso embaraço. Isso é comum de onde eu venho, entre gente da minha classe. É também brutal: a necessidade da ajuda. (Indica uma atriz) Venha, mais perto, senhorita. “Por favor?” (A atriz se aproxima.) Ela é o senhor. Seremos sua dificuldade. De algum modo fui salvo por isso, pelo teatro. O que acha da cultura, Leon? Não é bom esse nome? Será o dela e o seu, a partir de agora. (Sussura.) Fui salvo pela cultura, Leon… (sóbrio) mas tem alguma coisa de errado, de mentira nisso. A cultura como salvação é isolamento. (Pausa.) Não percebe?

ATRIZ QUE REPRESENTA LEON – Leon tinha quarenta e poucos anos…  

(Começa a peça.)

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