Política do Modernismo

Por que parte do movimento artístico radical do século XX perdeu sua postura antiburguesa, virou ideologia e foi integrado confortavelmente ao novo capitalismo internacional? É essa a pergunta de fundo dos ensaios de Raymond Williams reunidos em Política do Modernismo. A incorporação mercantil do projeto das vanguardas é discutida em descrições complexas, baseadas na historicização das formas e formações. Ele mostra que a neutralização da rebeldia (aquilo que converteu as imagens modernistas da desumanização em iconografia da publicidade) é também um risco que envolve o destino dos próprios Estudos Culturais, linha crítica que Williams ajudou a formar, sempre que a teoria se afasta do compromisso com a melhoria da vida.

Raymond Williams estava na contramão das tendências da universidade atual: era socialista, inventivo e contrário à especialização. Ironizava a crença no “determinismo tecnológico”. Associava o pessimismo cultural ao elitismo. Condenava o aburguesamento intelectual e o gozo da paralisia. Crescido no ambiente proletário das ferrovias inglesas, tornou-se professor de Cambridge. Nunca deixou de incorporar essa tensão em seu trabalho crítico. Dizia que a experiência mais importante de sua formação foi a educação de adultos pobres.

No centro de sua crítica estava a análise social das representações. Distante do sociologismo cru, que comenta só a temática das obras, e também do formalismo, que descreve as formas em sua “contemporaneidade eterna”, ele procurava ver como, no detalhe da composição artística, uma história coletiva pode se revelar.  Ao mesmo tempo combatia a hegemonia atual do formalismo pós-modernista, essa “fábrica de fórmulas contemporâneas” que produz um nefasto estreitamento do real.

Políticas do Modernismo mostra a luta de Willliams contra a acomodação do imaginário. Não só a imagem modernista é diluída quando se omite seu sentido antiburguês e sua história contraditória. O pensamento de esquerda passa a servir ao capital quando, nos termos de Williams, só consegue “especificar pela ironia” ou “universalizar de modo retórico”, contribuindo assim para a normalidade da destruição, para a “instalação da perda de qualquer futuro aceitável”.

(Resenha publicada em Le Monde Diplomatique Brasil, novembro de 2012, também disponível no endereço http://diplomatique.uol.com.br/resenhas.php?edicao=52.)

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