Carmelita

Das raparigas que freqüentavam os postos de gasolina nas noites quentes do norte do Brasil, à procura de oferecer seus serviços sexuais aos caminhoneiros, poucas eram tão vivas e inteligentes como Carmelita. Recusava a estrela da miséria na testa, diferente da maioria daquelas meninas que se vestem com roupas vermelhas e sandálias incertas antes de perambularem ao redor das máquinas estacionadas. Algumas batidas no vidro da cabine assinalam o oferecimento do encontro, desde que não haja uma toalha pendurada escapando pela porta. Nas estradas que levam do interior do Ceará à capital do Pará, seu nome era conhecido e de certo modo respeitado. Cabocla, bonita à maneira do agreste, falava na medida certa e conhecia bem os modos dos homens que conduzem mercadorias pelas estradas esburacadas daquelas paragens. Perguntem a qualquer um que tenha passado alguns anos aprendendo sobre a arte de trançar cordas para bem distribuir a carga nas carrocerias, que tenha enfrentado atoleiros e um dia visto como a própria tração do motor pode ensejar a liberdade (desde que haja um ponto de apoio numa árvore firme), qualquer um responderá sempre: “o pior da viagem é a solidão”. Carmelita sabia que uma rapariga deve ser mais que tudo uma companhia alegre. O motorista não quer ouvir lamúrias. “Desça aí, menina, no meio da estrada, é isso! Não preciso de tu para saber que a vida é uma merda! Meu irmão foi preso, a mulher é mancha no braço, a criança não sai da diarréia! O sangue é mendigo! Desça que apanho outra, de cabaré colorido!” Com Carmelita não era assim. Pedia meio que rindo e tomava o volante, já sabia controlar a máquina nas vias de carga desse mundão.

(Anotação de 07.VII.08, Sobral, Ceará.)

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