Fragmento sobre Jacobbi

Por muito tempo de sua vida, Ruggero Jacobbi  pensou que era “alguém de passagem, alguém provisório” no teatro. Vindo das letras, da estética filosófica, do interesse por cinema, ele demorou a se reconhecer no  mundo das coxias, dos atores, e das expectativas do público. Mundo, de qualquer modo, sempre estranhável. Foi, entretanto, graças a essa atitude de inadaptação, no que ela tem de recusa às eternizações (tendência que atuava nele como uma qualidade distanciadora das coisas prontas), que Jabobbi contribuiu – talvez mais do que ninguém – para a radicalização crítica do moderno teatro brasileiro.

Sobre a dimensão prática de seu trabalho modernista, ao mesmo tempo uma formação e uma desestabilização de padrões artísticos, dão testemunho alguns acontecimentos de sua estada no Brasil: a colaboração com o Teatro Popular de Arte, a saída do TBC em virtude da censura estética e política à encenação de A Ronda dos Malandros, ou o papel decisivo nos rumos do Teatro de Arena, através da influência sobre Vianinha e Guarnieri. E mesmo do Oficina, por meio de Fernando Peixoto.

Por trás de tantos acontecimentos, um efeito: a desorientação da tendência ao aburguesamento traçada para o moderno teatro brasileiro caso se tornasse hegemônico o modelo franco-italiano da cena do TBC, apoiado pela melhor crítica da época. Mesmo em relação ao importante trabalho histórico de seus pares (Jacobbi era amigo fraterno de Décio e nunca deixou de falar bem de Zampari), ele parecia atuar como se fosse sempre o mais estrangeiro de todos: alemão politizado ou inglês oitocentista, quando perto de seus compatriotas italianos e, paradoxalmente, mais “brasileiro” quando ao lado dos colegas da imprensa nacional.

Não foi pequeno seu esforço para corrigir os rumos de uma modernização que punha de lado seu passado local e que – ao anular a própria historicidade – assumia um comportamento pouco modernista. Modernização teatral sem atitude modernista, que não sabia extrair seu futuro da “ida ao povo” de que falavam Mário de Andrade e Gramsci.

Em sua impermanência deliberada, Jabobbi nunca abandonou a idéia de que a arte deve ser feita no meio das pessoas comuns. Nunca deixou de pensar o teatro como o “poema que desce à rua” porque dela provém.

Ao fim das contas, a condição de sujeito passageiro não era do jovem intelectual, mas do próprio teatro.

(Fragmento inicial do posfácio à edição de Teatro no Brasil, de Ruggero Jacobbi (1920-1981), a ser publicado pelo Editora Perspectiva, com tradução e notas da pesquisadora e diretora Alessandra Vanucci.)

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