Processo P (nota sobre Chaplin)

Assistimos a algumas cenas de Chaplin como modelo de trabalho nos ensaios do Processo P. Mesmo nos filmes anteriores ao tipo Carlitos, está em jogo uma personagem abúlica, de vontade precária, a quem o mundo das coisas surge como ameaçadoramente vivo. A porta do carro batida com força volta nas costas do bêbado, o aquário de peixes abre sua boca estática para engolir a perna de quem pula a janela, o tapete de urso olha para o sujeito como que duvidando de sua humanidade.  As coisas se animam, em grotesca dinâmica fetichista, diante do homem  coisificado, patético. Tudo faz lembrar os manuscritos do jovem  Marx. A vida subjetiva e objetiva atravessada pela reificação, como em Lukács de História e Consciência de Classe, num mundo aquém dessa consciência. A complexa tarefa do ator é compreender a medida da idéia fixa, a um tempo vivida e exposta de modo narrativo. Siderada, a personagem se mantém à beira do colapso, entre a alienação extrema e a recusa pasma ao estrago. A salvação cômica surge no detalhe negativo, realizado com intensidade existencial: o empurrão imprevisto, o pãozinho esfregado na gordura da panela  quando tudo parecia sem solução.

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