Uma conversa sobre crítica

DANIELE AVILA – Eu queria te fazer uma pergunta sobre crítica. Acho que o trabalho de vocês pode ser associado aos termos “político” e “pedagógico”, de alguma maneira. E por isso talvez você possa me ajudar a pensar sobre isso: em que medida a crítica pode ou deve ser pedagógica? E o que falta, ou faltaria – eu tenho a impressão de que falta – para a crítica ter uma dimensão política forte?

SÉRGIO DE CARVALHO – Eu tenho uma relação contraditória com a crítica teatral. Eu fui crítico de jornal, de O Estado de São Paulo, por um período curto nos anos 90. Por uns dois anos eu escrevi crítica. Como eu já era dramaturgo, eu evitava espetáculos de São Paulo, escrevi mais sobre montagens de fora. Dou aula ainda hoje na USP na área de crítica. E a Companhia do Latão é um grupo de teatro que tem uma trajetória de briga com críticos. Aqui no Rio com a Bárbara, lá em São Paulo com vários deles.  As brigas ocorreram quando necessário, quando o comentário deles foi leviano, falsificador, quando eu sentia que a crítica mentia de algum modo. E, ao mesmo tempo, no fundo, a grande briga era – e ainda é – em relação ao modelo de crítica completamente mercantilizado, em que o sujeito atua como um distribuidor de consumo. Claro que a história da crítica é um pouco essa.  Quando você estuda, vê que ela está sempre ligada umbilicalmente ao mercado de artes, como grande parte da imprensa. Mas essa sujeição plena à perspectiva do consumo, abrindo mão de qualquer formação pedagógica, formativa….essa posição do juiz do consumo… eu sempre achei tristíssima para um crítico.  E para o movimento teatral de uma época. E vendo os últimos dez anos – nós procuramos reavaliar toda produção sobre o Latão para editar um livro – verificamos que o Latão não tem fortuna crítica: tem uma miséria crítica. Apesar de cada peça ter sido muito comentada. Mas sempre por causa dessa hegemonia da perspectiva do consumo. Nos jornais os críticos trabalham sem preocupação com argumentos, sem reflexão sobre o sentido, sem interpretar, sem se por ao lado da construção de alguma coisa maior no mundo e no teatro. Então eu acho que por isso, de certo modo, é que nós decidimos produzir teoria. Diante desse déficit de pensamento público.

DANIELE AVILA – Vocês estão assumindo a responsabilidade. Porque não se pode delegar a responsabilidade sobre a discussão pública sobre teatro pra jornal, porque eles não têm esse interesse.

SÉRGIO DE CARVALHO – Você tem que criar outros canais (…). Mas é difícil atuar no teatro e tentar ainda organizar um debate. Isso demanda muito esforço. Dá muito trabalho fazer uma peça. Agora, fazer uma peça, fazer revista, fazer livro… Às vezes a energia não é suficiente para tantas tarefas que ao mesmo tempo nós sentimos como necessárias. Porque se não fizéssemos nada,  a situação não mudaria. Sem que alguns grupos tivessem atuado dentro do movimento de teatro de São Paulo, não existiria a Lei de fomento. Sem a gente gastar tempo pra fazer reuniãozinha, não existiria o  Arte contra a Barbárie. (…) Quando você lê uma crítica dos anos 60, existia ali uma vontade de participação no conjunto da cultura.  Mesmo os críticos mais mercantilizados tinham uma postura de atuar dentro de um projeto maior. Entretanto, mesmo naquela época são exceções os grandes críticos, como o Anatol Rosenfeld. Ele sim é um crítico que é um pedagogo. Mas também porque ele tem o que ensinar. Não adianta  ser didático e não ter o que dizer. (…) Eu tenho simpatia por esses trabalhos de fronteira, em que alguém se esforçou para tentar criar outras redes, agregar outras pessoas, além das instituições e especializações. Nós temos mesmo que sermos responsáveis. Pena que não dispomos de muito tempo livre, além da luta pela sobrevivência.

(…)

MICHELLE NICIÉ – (…) A gente tem também meios diversos pra lidar com a questão da crítica hoje, eu acho. Não é só através de interpretação, acho que a gente também se serve de uma série de outros fatores, que a gente tem mesmo que utilizar, que a gente não teria a chance um pouco mais atrás.

SÉRGIO DE CARVALHO – A questão para mim é superar o padrão institucional que você recebe. O que eu quero dizer é o seguinte: na universidade hoje existem muitos estudos interessantes sendo produzidos.  Só que na maioria – isso eu falo porque eu sou professor  – são estudos segmentados, o objeto não transcende o seu campo, o pesquisador fica ali fechado muitas vezes abastecendo um conjunto de expectativas técnicas. Existe um tecnicismo às vezes, auto-referente.Se você ler aquela listagem da ABRACE (Associação de pesquisadores em nível de pós-graduaação em artes cênicas) você vê uma repetição infindável dos mesmos temas abstratos e desimportantes. As conexões históricas maiores não estão sendo feitas.  Então é preciso ir além, superar a norma institucional do grupinho de pesquisa acadêmica para poder fazer alguma coisa além do abastecimento do aparelho acadêmico. No jornal, o pesquisador de teatro está pressionado pelo modelo mercantil. O crítico que sobrevive no jornal é aquele que se converte, ele próprio, em mercadoria.A sobrevivência de uma crítica arcaica como a Bárbara Heliodora se deve a essa marca personalística que ela imprimiu no texto, que faz dela uma mercadoria renovada. Ela, por meio de seu personalismo e falsa erudição, perdura porque circula acima das obras que está discutindo. Na universidade, poderia ser diferente, mas não é. Predomina a adequação ao tecnicismo, outra face do fetichismo mercantil.

(Trecho de entrevista publicada em Questão de Crítica, a partir de conversa com Daniel Schenker, Daniele Avila, Isabel Pacheco e Michelle Nicié, quando do lançamento dos livros Introdução ao teatro dialético e Atuação crítica, no Rio de Janeiro, 5 de fevereiro de 2009. A íntegra da conversa está disponível em http://www.questaodecritica.com.br/2009/02/atuacao-critica. Foram feitas algumas correções no texto original.)

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