Gogol e a arte histórica

Em Inspetor Geral (Revizor), de Gogol, a sátira se amplia até o grotesco.  Mesmo quando o autor se vê obrigado ao esquema da intriga cômica, o desenvolvimento convencional não atrapalha a vida torta dos tipos. Nos contos e romances, mais livres da tradição formal (sempre autoritária no mundo do teatro), Gogol foi ainda mais genial. Na fantástica narrativa de O retrato, encontro uma síntese de sua visão de arte, atribuída a uma das personagens, um pintor fora do comum: “Era um homem notável sob muitos aspectos. Um artista como poucos. (…) Um nobre instinto fazia-lhe sentir em cada objeto a presença de um pensamento. Descobriu sozinho o sentido exato dessa expressão, ‘a pintura histórica’. Ele intuia a razão pela qual se pode chamar assim a um retrato, a uma simples cabeça de Rafael, de Leonardo, de Ticiano ou Correggio, enquanto que um painel imenso de temática extraída da história pode não passar de um ‘quadro de gênero’, apesar de todas as pretensões do pintor a uma arte histórica.”

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