A parábola da Srta. X

Desde a adolescência, segunda fase de um convulsionado desenvolvimento libidinal, a Srta. X percebeu a forte conexão entre desrepressão e experiência estética. Não apenas o contato com “obras de arte” (essa expressão de valor entrou em seu vocabulário depois de alguns debates com amigos sobre canções de discos antigos ou certos filmes menos convencionais do que aqueles que ela via na televisão), mas sobretudo sua participação em algumas aulas de teatro da escola lhe mostraram que havia nessa modalidade de experiência – a da arte – um sentido de liberdade raro em outros lugares de uma vidinha até então muito “administrada” (para usar outra expressão que mais tarde entraria no seu vocabulário).  Dia a dia X percebia que no teatro toda sua inadequação não era um problema. Em muitas situações, inclusive, seu corpo abrutalhado e incomum, sua oscilação gestual entre extremos de masculinidade e feminilidade, seus desejos suspirantes e frágeis, sua atenção viva de quem cresceu se sentindo acuada, se convertiam numa vantagem. Em pouco tempo a Srta. X começou a compreender “a importância de ter estilo”, segundo outra velhíssima expressão, na proporção em que perdia o medo de representar. A utilização de uma máscara, ela notou mais cedo que os outros, permitia uma vazão de forças inconscientes que pareciam lhe soprar:  “para a frente, apareça!” Com o desenvolvimento de um inegável talento para o palco, e ela trabalhava sério nisso, teve condições e calma para observar a natureza da distinção que lhe era conferida pelos comentários de seus amigos. Não era só o que ela fazia em cena que chamava a atenção, mas também uma certa aura que ela, pouco a pouco passou a cultivar e exibir: silêncios de gravidade alternados com ênfases gritadas, atitude sacralizante com o ofício, despreocupação ostensiva mas agressiva com a opinião alheia, momentos de ternura inesperada com os colegas mais fracos do grupo. Cada gesto dentro, e principalmente, fora do palco lhe conferiam um valor crescente. Que houvesse também um crescimento de seus maneirismos de atriz, um longo apertar de olhinhos ou uma modulação de voz treinada e fora de lugar, mas de efeito certo, questões apontadas e reprovadas por seu velho diretor, isso só lhe fazia sorrir. Eram marcas pessoais da libertação da mediania. E o diretor, antes admirado e temido como todo pai, lhe parecia agora um perigoso “castrador” a ser ridicularizado pelas costas. Certo dia, inclusive, ela convenceu alguns de seus colegas de que eles não estavam sendo de fato dirigidos, e passou a aconselhá-los sobre como se comportar em cena. E sua ajuda foi muito estimada. Que isso apenas servisse para favorecer o isolamento de X como estrela da peça, era coisa que talvez só o velho diretor tivesse notado, sem suspeitar das razões daquela súbita uniformização e sutil desalegria no resto do grupo. Diante da nova capacidade da Srta. X gerar paixões, sua antiga predisposição a se encantar agora se condicionava à admiração alheia. Ela estaria, dali por diante, sempre em função. “Queira a metamorfose” não era só mais uma divisa ideal.

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