A metafísica do “contemporâneo” em arte

Há mais de 30 anos, parte do teatro considerado experimental reproduz diversos padrões formais, numa espécie de cartilha gasta de recursos cênicos. Como justificativas ou legitimações desses estilemas, foram construídas diversas supostas teorias, quase todas elas amparadas na recusa pós-estruturalista à racionalidade. As teorias, na verdade arrazoados poéticos, variam nos termos chave (“paisagem de sonho”, “dinâmica volitiva”, “não-duplicação”, “anti-mimético”, “performatividade”) conforme o autor que fundamenta a condenação das “grandes narrativas”.  Mas têm um fundo comum: o culto idealista à chamada PRESENÇA, entidade abstrata que palpita no seio de outra sentença feita – a necessidade de uma “arte contemporânea”.

A rigor, a expressão é utilizada sempre para acusar de obsoleta qualquer representação anti-metafísica. Tornou-se uma grosseira fórmula de anulação do debate. Bem longe de qualquer reinvindicação legítima de atualidade pela inscrição histórica, a suposição de uma abstrata “forma contemporânea” a ser perseguida pelos artistas não esconde seu dogmatismo puramente estilístico. A expressão retoma o velho dualismo forma e conteúdo. Distingue as obras pela sua suposta capacidade de “tocar ou não tocar” a “sensibilidade contemporânea”. A norma formal nunca enunciada parece se referir a algo capaz de superar o projeto modernista (em sua dialética de aprofudamento e negação estética). Como os meios da superação não são expostos, além de uma vaga alusão ao contraponto às formas dominantes da indústria cultural (que formas? que contraponto?), impõe-se a fórmula a-histórica e metafisicante: “contemporâneo”. O suspeito “toque perceptivo” desejado por tantos artistas e críticos que acham que o máximo da arte é “causar experiências” nunca é explicado em termos concretos e parece sugerir o desejo de uma libertação genérica das amarras conceituais e representacionais. A noção de experiência é assim reduzida a uma fruição espácio-temporal em que vale tudo, menos pensar ou historicizar. Como o pseudo-conceito esconde uma normatividade estilística, talvez seja o caso de dar aqui algumas sugestões práticas àqueles que se interessarem em aprender as regras dessa poética metafísica.

 

Breve manual para se tornar contemporâneo

 

  1. Ponha na cabeça de uma vez por todas: a representação não dá futuro, o teatro é pura presença. Pratique, assim, a exposição da coisa em si. Prefira utilizar elementos cênicos que imponham sua “mesmidade”, impedindo que o espectador imagine algo além do que vê: água, sangue real, cocô, embutidos, nudez. Pode-se usar também anões ou galinhas, de preferência parados, como objetos capazes de negar qualquer subjetividade representacional. Combata a imaginação.
  2. Exponha o aparato como técnica admirável e diga que isso traduz a mecanização da vida.  Voz nos microfones, câmeras que captam a performance em tempo real e a projetam numa tela,  maquinismos cenográficos, tudo em contraste com os CORPOS, que se mostram como corpos, com os dedos dos pés bem abertos.
  3. Nas falas, prefira a forma monológica, afásica, entrecortada e lírica.  Necessariamente herméticas pois a inteligibilidade está ultrapassada. Depoimentos confessionais que interrompem o fluxo da cena, expondo algo da vida dos atores, ainda são usados. Paisagens verbais pré-conscientes em que a própria linguagem procura se oferecer em sacrifício, no limite da boa vontade da platéia, também pegam bem. Diálogos só se forem abstrações sobre abstrações, sem interlocução subjetiva.  Repita certas frases paradoxais, criando refrões com ares trágicos, de preferência com os atores demonstrando muita seriedade, no limite do mau humor.
  4. Em síntese, cause experiências: de risco (nos atores e público), de nojo, de estetização do espaço, de expectativa de medo ou de tesão pela interatividade. O pressuposto da relação teatral corresponde à velha máxima: “se o cliente é impotente, a puta precisa lançar mão de todos os recursos”.

 

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