Brecht e a dialética (trecho)

A compreensão do indivíduo como fenômeno social, nos termos do teatro como “imagem praticável”,  está também no centro da melhor teoria escrita por Brecht naqueles anos do exílio.

Como se sabe, ele imaginou realizar uma grande síntese de sua visão teatral num projeto chamado A Compra do Latão, que permaneceu incompleto e fragmentado. Mais do que escrever sobre a dialética do teatro, ele procurou uma forma literária dessa dialética. Com esse intuito, Brecht imaginou um diálogo entre um grupo que se desdobraria por quatro noites. De um lado, um grupo de atores que encenam uma peça de Shakespeare, de outro, um filósofo convidado. O debate acontece – distanciadamente – enquanto os técnicos desmontam o cenário após cada apresentação e são mediados por um dramaturgista.

No Diário de Trabalho, numa nota de fevereiro de 1939, existe um resumo do projeto ao qual Brecht se dedicou por 16 anos:

“Um bocado de teoria em forma de diálogo em A Compra do Latão. (Fui estimulado a usar essa forma pelos Diálogos de Galileu. Quatro noites. O filósofo insiste no teatro do tipo P (tipo planetário, em vez do tipo C, tipo carrossel) simplesmente para fins didáticos: movimentos de pessoas organizados como meros modelos para finalidades de estudo, para mostrar como funcionam as relações sociais, a fim de que a sociedade possa intervir. Os desejos deles se transformam em teatro, já que podem ser executados no teatro. De uma crítica do teatro surge um novo teatro. A coisa toda concebida de modo a poder ser realizada, com experimentos e exercícios. Centrada no Efeito de Estranhamento.”[1]

A Compra do Latão é uma teoria-prática, um tratado fragmentário que que surge da interação entre diversos pontos de vista: não é o filósofo que contém a visão plena do projeto. Ele defende uma funcionalidade que se opõe ao idealismo artístico de alguns atores, mas por sua vez é criticado pela situação concreta do trabalho teatral. Toda o obra artística de Brecht está marcada pela procura de uma unidade contraditória entre reflexão e ação, num movimento em que a própria condição estável da obra entra em causa. Nas quatro noites eles falam do teatro político de Piscator, comparando suas conquistas às do Homem de Augsburg, dos limites e da força do Naturalismo, de Shakespeare como um dramaturgo-chefe de um coletivo, da arte do ator como elaboração histórica,  da função desalienante da arte ligada a um estilo alienante de representação, da importância de se estudar autores “clássicos” como Marx.

Na dramaturgia Planetário apresentada pelo Filósofo, o espectador está parado, olhando para o movimento dos astros com o intuito de entender suas leis dinâmicas. Ela é contraposta ao teatro do Carrossel, em que o espectador gira e dá saltos em torno de um centro, sem romper com o circuito emocional. O grande teatro dialético está bem mais distante do Carrossel do que do Planetário. O modelo de Brecht, entretanto, não é uma coisa nem outra. Ainda que procure discutir causalidades de comportamentos, seu movimentos filosofante desconfia das configurações em abstrato. A construção material é a base de sua atitude dramatúrgica, e seu teatro rejeita o obscurantismo com as mesmas forças que despreza as generalizações falsas e ama a imprevisibilidade e impureza da vida.

São conselhos do filósofo de A Compra do Latão aos atores: “Quando pensam que um camponês terá – em determinadas circunstâncias – uma determinada maneira de agir, então escolham um camponês bem determinado. E não um escolhido ou construído só pela condescendência em agir exatamente de tal forma. (…) A noção classe, por exemplo, é uma noção que engloba um grande número de pessoas individuais, sendo estas, portanto, suprimidas como indivíduos. Para a classe são válidas determinadas leis. Estas são válidas para a pessoa individual na medida em que ela é idêntica à classe, portanto não absolutamente. (…) Vocês não representem princípios, mas seres humanos.”[2]

 

Juízos novos

O Grande Método de Brecht só confirma a força da atitude dialética quando livre de qualquer mecanicismo teleológico. Sua obra se ergue sobre categorias móveis, por sua vez negadas pela realidade dos materiais de arte. Ela mostra visões que são válidas num momento e circunstância determinadas, mas que após um tempo e noutra circunstância já não são e atuar sobre o dinamismo é o trabalho do espectador.

Me-ti dizia: “As experiências se transformam muito rapidamente em juízos. (…) A maioria das pessoas se lembra dos juízos, acreditando que eles correspondem às experiência reais”. Sobre isso Me-ti sugere: “E está claro que as os juízos não são tão confiáveis como as experiências. Para conservar frescas as experiências é preciso uma técnica especial que permita tirar delas continuamente juízos novos.”[3]

O modelo brechtiano é o dos experimentos imaginativos capazes de gerar juízos novos. Sua dialética não pode ser deduzida dos conceitos, de sua história ideológica, mas de seus vínculos históricos com práticas possíveis. “É preciso deduzir a dialética da realidade”, era uma de suas formulações recorrentes.

 


[1] Diário de Trabalho, volume I: 1938-1941. Rio de Janeiro: Rocco, 2002, p. 24.

[2]A Compra do Latão (1939-1955), op.cit., p. 54.

[3]Narrativa completa 3: Historias del senõr Keuner/Me-ti, livro de los câmbios. Op.cit, p. 82.

 

(O texto integral pode ser lido no  livro Pensamento Alemão no século XX, vol. III, organização de Jorge de Almeida e Wolfgang Bader, São Paulo: Cosac Naify, 2013, pp.111-134)

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