Breve conversa sobre teatro dialético no Latão

Juliana Gobbe – Como se deram as leituras de Brecht pela Companhia do Latão nos anos 90 no Brasil?

SÉRGIO DE CARVALHO – Eu tive interesse em começar meu estudo da obra de Brecht pela teoria. Organizei o primeiro projeto do Latão em torno desse estudo. Elegemos os escritos de “A Compra do Latão” como material de uma pesquisa cênica, mas logo vi que a teoria ali é dramaturgia, assim como a reflexão de ordem estética é reflexão política – e a teoria é prática. Em Brecht a obra de arte é síntese parcial de um trabalho, e este conceito de trabalho teatral é político. As obras mantém uma relação contraditória com este trabalho geral, que problematiza a própria função do teatro. Brecht passou a ser então uma referência de estudo e de trabalho com dialética (a procura de um pensamento prático, do tipo “interveniente”, de imagens praticáveis) quando entendemos esse sentido totalizante projetado por suas “tentativas”, seus ensaios e esboços, o que dialoga, obviamente, com o trabalho de outros dialéticos formados pelo marxismo.

Juliana Gobbe- Como você avalia as experiências do teatro brechtiano aqui no país?

SÉRGIO DE CARVALHO – Houve um grande momento inicial no fim dos anos 50 e início dos 60, em torno dos estudos do Arena e da prática do CPC. Ali a perspectiva épica – Brecht e Piscator começaram a ser estudados – ainda estava em tensão com a novidade do drama brasileiro, e a dialética era de base idealista, o que não impediu, por força da animação e liberdade intelectual daquela geração, e pela procura de proximidade com a vida popular e a luta política, que se produzissem os trabalhos mais importantes do teatro moderno brasileiro. Esse movimento deu frutos até o fim da década de 70. E há um outro momento de teatro épico no final da década de 90, quando Brecht volta ao Brasil por efeito da onda de modernização conservadora em bases liberais que impregna uma produção cultural em outra fase, já mais institucionalizada, cindida entre pesquisa e comercialismo. Esse estudo de Brecht vem como referência diante do estrago, como vontade de aprendizado épico-dialético em tempos de caos cruento. É uma abordagem, nos seus melhores casos, mais negativa dessas referencias, mais dialética num certo sentido, mas que ecoa antes como símbolo do que como realidade de uma cultura crítica.

Juliana Gobbe – A perspectiva do “teatro de militância” numa atuação com forte viés social pode, de certa forma, apontar um horizonte mais humanizador diante do ser humano diluído no pós-modernismo?

SÉRGIO DE CARVALHO – As perspectivas humanizadoras da cultura burguesa clássica não eram muito menos mentirosas do que o cinismo pós-moderno quando tentavam resolver os problemas da vida de uma perspectiva “interior”. A vantagem é que eram muito mais inteligentes, animadas, mobilizadoras – mesmo quando sabemos que o projeto de “esclarecimento” também contém seu avesso. O problema, lá como cá, não é só que ideia de “ser humano” está em questão, mas o que ela reproduz ou gera como prática social. A que ritos ideológicos ela serve? Um teatro crítico só interessa quando sabe que a história do que chamamos cultura também é expressão de barbárie, como disse o Walter Benjanin, porque fundada na divisão social do trabalho. Um teatro crítico só interessa quando reflete agudamente, o que não é fácil, sobre sua própria inscrição no mundo da luta de classes e sobre sua participação nas dinâmicas da forma mercadoria.

Juliana Gobbe – Diante desse momento crucial do capitalismo no mundo. Qual é o legado que o teatrólogo alemão deixou para o ocidente?

SÉRGIO DE CARVALHO – Uma compreensão prática e autocrítica da dialética, ligada à sua dimensão estética.

Juliana Gobbe – De que forma o teatro dialético, se praticado nas escolas, pode contribuir no processo de formação humana?

SÉRGIO DE CARVALHO – Pode contribuir desmontando convicções e relações de trabalho ideológicas.

(Entrevista feita em 11.02.2016 para estudo da pesquisadora.)

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