Ofício do diretor – uma entrevista

Ney Piacentini e Helena Albergaria em O Circulo de Giz Caucasiano

Trechos de entrevista de Sérgio de Carvalho. Realizada por André Carreira para o livro Arte y oficio del director teatral en America Latina: Bolivia, Brasil y Ecuador, organizado por Gustavo Geirola, Buenos Ayres: Nueva Generacion, 2010, pp. 91-99.

Como você chegou à direção teatral?

Comecei meu trabalho teatral como dramaturgo. Apesar de algumas experiências anteriores em direção (feitas na universidade, durante a graduação e o mestrado), minha intenção era seguir apenas escrevendo ficção e teoria. Decidi me dedicar ao ofício de encenador quando entendi, através da prática experimental, a possibilidade de juntar os campos. Passei a me dedicar a uma dramaturgia crítica da cena, ligado a um coletivo de artistas, a Companhia do Latão.

Qual foi sua primeira direção e que objetivos você tinha nesse momento?

Minha primeira experiência, muito jovem, como diretor amador, foi na universidade, com a montagem de uma versão reduzida do Hamlet, que narrava a história de trás para frente. Eu estudava a teoria da representação clássica da Melancolia na obra de pesquisadores como Erwin Panofsky e Fritz Saxl e procurava aplicá-la à cena. A intenção era realizar uma cena reflexiva. Essa dimensão teorizante se desenvolveu em meu trabalho com toda força quando tive contato com a obra de Brecht e de Marx.

A partir de sua experiência, como definiria hoje o papel do diretor?

O diretor tem a função de estimular o interesse do grupo pelo processo teatral com base no assunto da peça. Isso só ocorre se ele ajudar a formar um ambiente favorável a uma invenção imaginária coletiva e livre. Deve estimular também uma reflexão do grupo sobre a pesquisa formal, capaz de desmontar a ideologia dominante contida nas formalizações culturais.

Acredita hoje que tem um estilo ou marca pessoal?

Procuro, em cada trabalho, trair as conquistas anteriores. Como tenho feito isso muitas vezes, talvez haja um estilo.

Desde sua perspectiva, qual foi sua melhor encenação, não pelo sucesso de público, senão porque se ela colocou grandes desafios que você sentiu que havia sabido enfrentar e resolver?

Do ponto de vista do trabalho dos atores e da complexidade das cenas, minha encenação mais avançada foi O Círculo de Giz Caucasiano, baseada em texto de Brecht. (Hoje, quando esse texto é publicado na internet, eu diria Ópera dos Vivos).

Dentro da mesma perspectiva, qual foi sua pior encenação, não pelo eventual fracasso de público, senão porque você sentiu que não chegou a finalizar o projeto, ou alcançou uma resolução mais favorável?

Todos os espetáculos da Companhia do Latão que estrearam sem a qualidade desejada foram modificados radicalmente nas semanas seguintes (não sem alguma crise) e vieram a alcançar um nível artístico superior ao das montagens anteriores.

Qual gênero mais te interessa, ou com qual você tem mais afinidade: a comédia, o drama, a tragédia, etc.?

A ciência dos gêneros, para o bem e para o mal, está irremediavelmente perdida. Sobrevive como mistificação na indústria cultural.

Que arte ou artes você acredita que mais influencia teu trabalho como diretor: a pintura, a música, a arquitetura, etc.?

A literatura e a música. Mas também uma que não pertence às belas artes: a do trabalho coletivo.

Que diretores tiveram impacto — não quero dizer influenciaram — teu trabalho? Poderia nomear alguns a nível internacional, nacional e a nível regional latino americano?

Uma grande influência na minha formação foi Peter Brook, sobretudo por sua montagem experimental (e pouco conhecida) de Qui est lá?, exercício baseado em Hamlet. No Brasil, aprendi sobre o processo teatral com o inconformismo de Márcio Aurélio, com quem trabalhei como dramaturgista. Dos grandes teóricos do teatro latino-americano, tenho grande admiração por Augusto Boal e Enrique Buenaventura.

Há alguma peça que sempre te interessou dirigir e que, por diversos motivos, nunca pode fazer?

Várias peças: Woyzeck, de Büchner; O Jardim das Cerejeiras, de Tchekhov; Combate de Negro e Cães, de Koltés.

Você escreveu teatro?

Todas as peças da Companhia do Latão foram escritas por mim em parceria com diversos artistas, principalmente Márcio Marciano.

Já montou alguma peça tua? Se for o caso, o que você achou da experiência? Que facilidades ou dificuldades você encontrou em comparação com a direção de uma peça de outro autor?

Os meus textos foram modificados na sala de ensaio, num trabalho de criação coletiva. Percebo que quando dirijo textos de outros autores, acabo por considerar a dramaturgia um material a ser modificado pela cena, recusando qualquer simples veiculação. A cena assume sua dimensão crítica de modo mais radical na medida em que é preciso atualizar a experiência do texto. Tendo a ser mais conciliatório, infelizmente, com meus próprios textos.

Você já dirigiu cinema ou televisão? Se foi o caso, que diferenças ou semelhanças há entre estas práticas e a direção teatral?

Dirigi um telefilme para televisão, Valor de Troca, inspirado num espetáculo da Companhia do Latão. A fonte original era uma notícia de jornal sobre uma moça, na França, que foi estuprada por policiais que a protegiam. Ela não era considerada pelos advogados “uma vítima ideal”, sendo uma “boneca que nunca disse não”. O roteiro era sofisticado demais para o sistema de trabalho mercantilizado da televisão, com sua especialização e alienação. Mesmo na TV estatal no Brasil, a produção é extremamente hierarquizada, presa a normas supostamente profissionais que dificultam a coletivização da criação. Tive que lutar ou ludibriar a estrutura produtiva para criar espaços e tempos de improvisação. No teatro a equipe pode controlar melhor os meios de produção.

Você trabalha com datas fixas de estréia? Por que?

Quase sempre sim, senão improvisaríamos indefinidamente.

No dia da estréia, você participa muito ou, como fazem alguns diretores, você nem aparece no teatro?

Acompanho a estréia, ensaiando até a última hora.

Você faz ajustes enquanto a peça está em cartaz?

Assisto a quase todas as sessões, anotando possíveis correções, sugerindo modificações.

Como as peças chegam às tuas mãos?

Vou à biblioteca.

Quando você trabalhou – se isso ocorreu – com um dramaturgo vivo, você teve interesse na sua presença durante os ensaios? Essa presença foi útil? Em que sentido?

Sou meu próprio dramaturgo, sempre conto com parceiros ou colaboradores. Todos muito vivos.

Quando você começa um projeto, seja a partir de um texto ou de uma idéia, o que vem primeiro na tua imaginação, de onde você parte, do espaço, de uma imagem, de um ritmo, de uma cor, etc.?

Parto do interesse por um tema ou da admiração por um texto ou autor. De início não tenho mais do que isso: um sentimento difuso, uma intuição do valor do projeto. O espetáculo começa a nascer quando diversas imagens, gestos e atmosferas, experimentadas na sala, entram em choque de modo a se concretizar pouco a pouco e fazer algum sentido.

Quando vai começar os ensaios e reúne aos atores, você comunica-lhes teus principais objetivos – ainda que depois se modifiquem com o trabalho dos atores – ou você prefere não falar muito e deixar que eles descubram ao longo do trabalho? Ou melhor, você vai ao ensaio com objetivos?

Ultimamente, anuncio o mesmo plano: o objetivo fundamental da alegria e do convívio fraterno durante o processo de ensaios. Os outros desejos, mais reflexivos, surgem como decorrência desse e são formulados quando se tornam concretos.

Há alguma qualidade que esses atores têm que sem ela você não poderia trabalhar com eles?

Bom senso no trato interpessoal, desregramento no trato imaginário.

Há algum tipo de formação atoral, de metodologia com a que você se sente mais afim, como por exemplo o método de Stanislavski?

Interessa-me o ator realista, com tal intensidade que seja capaz de superar o realismo.

Você sempre dirige com o desenho da sala a la italiana ou você gosta muito de experimentar com os espaços e com a distribuição do público? Te interessam os espaços não convencionais? Por que?

Interessam-me os espaços não convencionais desde que aprofundem a experiência ficcional.

Você já trabalhou com o método da criação coletiva, ou pelo menos o que se entende por isso na América Latina?

Só trabalho com criação coletiva.

Na história do teatro, alguns disseram, nas preceptivas especialmente, que o teatro é para deleitar, instruir, iluminar, entreter, etc. Tenho uma coleção dessas palavras. Qual seria, neste sentido, a palavra que mais representa teu propósito como diretor?

Repito uma frase da peça O Nome do Sujeito. Quando a moça ingênua pergunta ao homem o que existe no teatro, ele responde: “lugares e mais lugares”.

Em termos gerais, você tem algum tipo de etapas -mais ou menos fixas – que você cumpre em cada processo de encenação, como por exemplo, começa com trabalho de mesa etc.?

Trabalho com improvisações de todo tipo, até o limite do suportável. Não há trabalho de mesa, mas há algum debate crítico no fim de uma jornada prática de experimentações.

Quando você dirige, você o faz sentado na platéia ou sobes e desce do palco?

Dirijo no palco.

Há alguma pergunta que você sempre desejou que te fizessem como diretor e nunca fizeram?

Uma pergunta que me permitiria fazer elogios a minha grande companheira: qual atriz você considera a mais genial? Eu responderia, sinceramente, o nome Helena Albergaria.

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