Recortes possíveis (I)

gelo

 Os irmãos Hawn

Os irmãos Hawn, de Okoboji, Iowa, cresceram no ferro-velho do bairro. Quando tinham dezessete, para fugir da modorra do fim de semana, desenvolveram o hábito de sair à procura do maior turista que cruzasse seu caminho, com a meta de esmurrá-lo. Encervejados, andavam em silêncio ao cruzar um grupo de veranistas. O inimigo deveria ser valente, para justificar a unidade de ação. Um dia, depois de uma disputa bem sangrenta, nocautearam um marinheiro enorme das forças armadas da América. Foram, por tal feito, reconhecidamente brutal, descobertos por um caça talentos do Vale Tudo (esporte que tem se difundido muito). Hoje os gêmeos lutam em jaulas armadas em estacionamentos, diante de platéias especializadas, rodeados por moças de maiô e cartazes, com quem às vezes saem para jantar. O mais emotivo dos Hawn muitas vezes chora quando artistas e público cantam o hino nacional de pé, olhos fixos na bandeira, antes do começo da pancadaria.

Maria Antonia

Ela andava no parque, olhava folhas no vento, quando dois cães arrancaram as coleiras das mãos que os conduziam. Avançaram sobre o pescoço, destroçaram carnes, desfizeram a jugular nos dentes. Tombou no calçamento, perto de uma raiz, sua cabeça raspada. Chamava-se Maria Antonia. “Tinha problemas mentais!”, disse alguém. O que causou um pouco de alívio a todos.


(Apontamentos sobre notícias de jornal. Foto de Carlos Albergaria de Carvalho Santos.)

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