A ATRIZ H (Para Helena Albergaria)

Por onde passa, instaura começos

ensaios, de alegria e espanto,

como as velhas divindades

(na mão, uma cicatriz)

No centro móvel da cena,

Ela percorre desvios

Estaca a fala, suspende o rito

Voa o cenário,

inaugura o sentido

No gesto em que tudo já era

no ato em que tudo é princípio

seu despudor é risonho

quase ofensivo

à cata da relação

precisa

Porque sabe o que interessa,

seu papel tipo,

quiçá um estilo,

parece antigo,

inapreensível,

vibra cordas da razão

Poderia ser dito, de modo mais materialista:

“É melancólica essa beleza

Que sabe seu agora”

no olho do vivo

Seu tempo de teatro é exato

como seu corpo:

prático, límpido, nítido, último.

O VELHO E O NOVO (para inaugurar esta página eletrônica)

A procura da interação entre o velho e o novo possibilita ao escritor ver nas coisas o seu processo. Todo o teatro de Brecht é atravessado por imagens de anacronismos e progressos, momentos da contradição entre atitudes antigas e novas, formas distanciadas de se compreender os padrões da atualidade. Numa nota de trabalho a respeito de A Boa Alma de Setsuan ele escreve: “Claro que já existem aviadores e ainda existem deuses neste Setsuan”. Acontecimentos motivados por épocas diversas aparecem em todo seu teatro. No atrito entre a dominação dos templos orientais e o exército inglês de Um Homem é um Homem, no novo petróleo que precisa do velho trabalho servil de A Exceção e a Regra, no diálogo o entre os revolucionários dos bairros de Paris e a razão financeira dos bancos em Os Dias da Comuna. O anacronismo social é mantido como forma de compreender o estrago em seu curso, surge para distanciar a mercantilização, exposta por sua vez em formas avançadas, quase totalizadas (neste quase, uma recusa ao sentimento trágico, uma abertura à prática teatral, a confiança de que a peça se realiza na plateia, o entusiasmo pela pesquisa, a vontade de que a peça estimule a criatividade de todos – o trabalho do teatro dialético).

De seus colaboradores no Berliner Ensemble, tal como me foi relatado por Peter Palitzsch, Brecht exigia que saíssem às ruas à procura de acontecimentos que envolvessem tempos contraditórios. Começava aí o aprendizado do escritor, no cultivo do “sexto sentido para a história”.

Numa das parábolas de A Compra do Latão, o escritor aprende tal atitude clássica de um operário que um dia pega uma antiga faca, de cima da escrivaninha do poeta, e se impressiona com a qualidade do cabo, que permite uma empunhadura adequada. O operário comenta: “Então, naquele tempo em que acreditavam em bruxas, eram capazes de fazer uma coisa assim. Hoje em dia usam aço melhor, mas ninguém sabe mais equilibrar o cabo e a lâmina. Como essa cabe na mão!”. Para observar é preciso comparar, para comparar é preciso já ter observado.

A imagem atravessa a lírica de Brecht, às vezes constituindo o tema do poema: “Meu avô já vivia numa época nova. Meu neto talvez ainda viva na antiga. (…) As novas antenas continuam a difundir velhas asneiras. A sabedoria segue passando de boca em boca.” Nos versos de Procura do novo e do velho, outra formulação bonita: “Como diz o povo: quando muda a Lua, a nova segura a velha por uma noite em abraço. Apresentai sempre o ainda e o – as lutas das classes. As lutas entre o velho e o novo ardem também dentro de cada um.”

Quando estava no exílio nos Estados Unidos, longe de uma atividade prática, isolado de seus colaboradores, lidando com a dialética extrema da Guerra, Brecht releu alguns desses escritos de A Compra do Latão e comentou que pareciam vir de outro tempo, e lhe jogavam poeira na cara. Por aquela época, em que esteve extremamente atento às novas coisas ruins (mais do que às velhas coisas boas) também escreveu: “Querer o novo é antiquado, o que é novo é querer o velho.” Mas quem está fazendo isso? Por que um progresso histórico se converte em anacronismo? E como pode se dar o contrário?  O problema, tornava-se claro, passava a ser a qualidade das novidades, seu sentido e valor social, diante de nossa velha (porém mutável) situação de humanos.

(Nota de trabalho em Paraty, quando da realização de uma oficina da Companhia do Latão.)

Decálogo de Cascudo para nortear a vida

(Publicado originalmente em O Estado de S. Paulo, 30.07.1993).

Eu organizava esta semana os livros na estante, naquela tentativa inconsciente de colocar em ordem a própria alma (algum resquício da primitiva magia simpática), quando o acaso me fez deparar com uma pequena obra, perdida atrás da fileira de livros. Intitulada O livro das velhas figuras, foi-me presenteada há muitos anos pelas mãos do próprio autor, o grande literato e folclorista Luís da Câmara Cascudo. Recordo-me incerto da circunstância. Continue lendo “Decálogo de Cascudo para nortear a vida”