Premiações

Ópera dos Vivos quase pôs fim ao tabu das premiações que paira sobre a Companhia do Latão. Foram, salvo engano, 5 indicações. Felizmente, as esclarecidas comissões tiveram o bom senso de não nos premiar. Em 15 anos de existência, o Latão só teve algum reconhecimento desse tipo em Havana, dado pela União dos Escritores e Artistas de Cuba. Por aqui, nunca, nada. Continue lendo “Premiações”

Privilégio dos Mortos: Ensaio do show

Após dois dias das apresentações de Privilégio dos mortos: ensaio do show, na semana passada, em sessões destinadas à gravação de um CD, decidimos adicionar o seguinte prólogo à montagem, para esclarecer o contexto da peça inédita àqueles que não assistiram aos quatro atos de Ópera dos Vivos.  O texto passou a ser lido antes do terceiro sinal:

“Privilégio dos Mortos, terceiro ato do espetáculo Ópera dos Vivos:

No tempo em que as idéias não estavam gastas porque andavam de mãos dadas com as ações Continue lendo “Privilégio dos Mortos: Ensaio do show”

Iluminismo e iluminação

10.11.2011
Palestra a um grupo de teatro intelectualizado. Após a fala inicial, ouço a pergunta reincidente: “Você acha que essa perspectiva iluminista, essa crítica da ideologia feita pelo teatro épico, dá conta das questões contemporâneas?”. Respiro fundo e tento explicar que o procedimento do teatro dialético não pode ser identificado ao desmascaramento, à exposição da mola econômica, que os aspectos decisivos estão na interação contraditória entre a cena e o público etc. Fico com vontade de sugerir a leitura dos textos de Marx sobre religião, Continue lendo “Iluminismo e iluminação”

Por um teatro materialista*

A Companhia do Latão tem debatido internamente algumas questões que dizem respeito à sua utilidade como produtora de representações. Para se opor aos modos hegemônicos da atividade artística numa sociedade orientada pela lógica do capitalismo tardio (cujo corolário é a transformação perene da cultura em mercadoria e da mercadoria em cultura) essa reflexão deve provir de uma ação cultural como prática política. Continue lendo “Por um teatro materialista*”

Encontro com Lauro César Muniz

Encontro de trabalho (nos dias 16 e 17 de agosto) com Lauro César Muniz, na Companhia do Latão. Ele nos explica seus anos de aprendizagem com Augusto Boal, entre 1961 e 1962, quando tomou contato com o método de escrita que o Arena desenvolveu antes do golpe militar. Boal estruturou, a partir de seus estudos sobre drama nos Estados Unidos, e das experiências anteriores de cursos laboratoriais do Arena e Seminário de Dramaturgia, um método pedagógico, baseado na dialética hegeliana de explicação da técnica dramática. Lauro César expôs o princípio em dois encontros com nosso grupo. Participaram alguns convidados:  artistas que em outras circunstâncias nos procuraram para estudar dramaturgia. Continue lendo “Encontro com Lauro César Muniz”

Uma fala sobre Ópera dos Vivos

O espetáculo Ópera dos Vivos foi concebido como um estudo teatral sobre o trabalho da cultura. Mais especificamente, a peça estuda a dialética entre a dimensão produtiva e formas de representação, a partir de algumas experiências modelares do teatro, do cinema e da canção, dos anos 60 até hoje.

O projeto surge no momento em que os artistas da Companhia do Latão comemoram 10 anos de sua atividade teatral. O plano de um espetáculo dessa natureza implicava, portanto, uma avaliação dos próprios rumos, um reconhecimento de acertos e limites do trabalho de um grupo, um inventário de experiências dramatúrgicas, e uma prospecção de futuro.  Continue lendo “Uma fala sobre Ópera dos Vivos”

Postais da Terreira da Tribo

Porto Alegre, 28 de junho de 2011. Iniciamos a montagem de Ópera dos Vivos na Terreira da Tribo. É uma viagem tornada possível graças à vontade e ao trabalho do Ói Nóis Aqui Traveiz.

O espaço foi transformado desde minha última visita. Removeram o material das antigas encenações que estava no fundo do galpão, agora liberado para a cenografia de Ópera dos Vivos, que se ergue sobre três relações teatrais distintas. Os próprios artistas do Ói Nóis construíram as as duas grandes arquibancadas. Uma delas terá que ser girada durante o intervalo. Eles já têm um plano para o deslocamento.Todos os atores do grupo conhecem um pouco de cenotecnia e de iluminação, sendo alguns melhores que a maioria dos técnicos que conheço. A não-especialização é a base de sua prática coletiva. Uma escola de teatro que valesse a pena deveria começar desse ponto central para o Ói Nóis: o trabalho intelectual não deve valer mais do que o braçal; o artista não é mais importante do que o técnico ou o faxineiro; as funções devem ser intercambiadas. Aula inaugural de uma possível escola inspirada nessa perspectiva: introdução à marcenaria para que se construa o próprio tablado onde se darão os ensaios; após o uso dos martelos, dos serrotes e lixas, terá início a leitura de textos de Marx sobre o trabalho na sociedade capitalista (como sugestão, fragmentos dos Manuscritos e da Ideologia Alemã). Continue lendo “Postais da Terreira da Tribo”

A ATRIZ H (Para Helena Albergaria)

Por onde passa, instaura começos

ensaios, de alegria e espanto,

como as velhas divindades

(na mão, uma cicatriz)

No centro móvel da cena,

Ela percorre desvios

Estaca a fala, suspende o rito

Voa o cenário,

inaugura o sentido

No gesto em que tudo já era

no ato em que tudo é princípio

seu despudor é risonho

quase ofensivo

à cata da relação

precisa

Porque sabe o que interessa,

seu papel tipo,

quiçá um estilo,

parece antigo,

inapreensível,

vibra cordas da razão

Poderia ser dito, de modo mais materialista:

“É melancólica essa beleza

Que sabe seu agora”

no olho do vivo

Seu tempo de teatro é exato

como seu corpo:

prático, límpido, nítido, último.