Gogol e a arte histórica

Em Inspetor Geral (Revizor), de Gogol, a sátira se amplia até o grotesco.  Mesmo quando o autor se vê obrigado ao esquema da intriga cômica, o desenvolvimento convencional não atrapalha a vida torta dos tipos. Nos contos e romances, mais livres da tradição formal (sempre autoritária no mundo do teatro), Gogol foi ainda mais genial. Na fantástica narrativa de O retrato, encontro uma síntese de sua visão de arte, atribuída a uma das personagens, um pintor fora do comum: “Era um homem notável sob muitos aspectos. Um artista como poucos. (…) Um nobre instinto fazia-lhe sentir em cada objeto a presença de um pensamento. Descobriu sozinho o sentido exato dessa expressão, ‘a pintura histórica’. Ele intuia a razão pela qual se pode chamar assim a um retrato, a uma simples cabeça de Rafael, de Leonardo, de Ticiano ou Correggio, enquanto que um painel imenso de temática extraída da história pode não passar de um ‘quadro de gênero’, apesar de todas as pretensões do pintor a uma arte histórica.”

Uma conversa sobre crítica

DANIELE AVILA – Eu queria te fazer uma pergunta sobre crítica. Acho que o trabalho de vocês pode ser associado aos termos “político” e “pedagógico”, de alguma maneira. E por isso talvez você possa me ajudar a pensar sobre isso: em que medida a crítica pode ou deve ser pedagógica? E o que falta, ou faltaria – eu tenho a impressão de que falta – para a crítica ter uma dimensão política forte?

SÉRGIO DE CARVALHO – Eu tenho uma relação contraditória com a crítica teatral. Eu fui crítico de jornal, de O Estado de São Paulo, por um período curto nos anos 90. Por uns dois anos eu escrevi crítica. Como eu já era dramaturgo, eu evitava espetáculos de São Paulo, escrevi mais sobre montagens de fora. Dou aula ainda hoje na USP na área de crítica. E a Companhia do Latão é um grupo de teatro que tem uma trajetória de briga com críticos. Continue lendo “Uma conversa sobre crítica”

Processo P (nota sobre Chaplin)

Assistimos a algumas cenas de Chaplin como modelo de trabalho nos ensaios do Processo P. Mesmo nos filmes anteriores ao tipo Carlitos, está em jogo uma personagem abúlica, de vontade precária, a quem o mundo das coisas surge como ameaçadoramente vivo. A porta do carro batida com força volta nas costas do bêbado, o aquário de peixes abre sua boca estática para engolir a perna de quem pula a janela, o tapete de urso olha para o sujeito como que duvidando de sua humanidade.  As coisas se animam, em grotesca dinâmica fetichista, diante do homem  coisificado, patético. Tudo faz lembrar os manuscritos do jovem  Marx. A vida subjetiva e objetiva atravessada pela reificação, como em Lukács de História e Consciência de Classe, num mundo aquém dessa consciência. A complexa tarefa do ator é compreender a medida da idéia fixa, a um tempo vivida e exposta de modo narrativo. Siderada, a personagem se mantém à beira do colapso, entre a alienação extrema e a recusa pasma ao estrago. A salvação cômica surge no detalhe negativo, realizado com intensidade existencial: o empurrão imprevisto, o pãozinho esfregado na gordura da panela  quando tudo parecia sem solução.

Começo de ensaio (Nota 1, processo P, 2012)

Iniciamos ontem os ensaios de um novo trabalho. Adoto o texto P como ponto de partida. Os primeiros improvisos serão dedicados a constituir as forças mediadoras: formais e temáticas. Como base para a ação central da peça, é preciso recriar seu contexto, seu conjunto narrativo, suas condições históricas. Adiarei por algum tempo o desenvolvimento de papéis. Ao radicalizarmos a compreensão dos aspectos gerais do material, numa perspectiva coletiva, podemos modificar a peça segundo nossos interesses atuais. Quero ampliar o gosto de todos pelas figuras que aparecem pouco mas devem distanciar o caso central e inscrevê-lo numa relação com o mundo do trabalho. A perspectiva deve ser gestual. Assistiremos cenas de Chaplin como modelos. É preciso cultivar a imaginação de grupo e a capacidade da equipe se divertir com o assunto, de modo a combater a expectativa de resultados. Criaremos gestos do Brasil, que podem vir, inclusive, a nos levar para longe do texto P, no sentido de outra peça. Faremos exercícios de realismo e de atitude narrativa, desenvolvidos de modo experimental, sobre as questões críticas da pesquisa. A composição de gestos vivos da história nos levará ao encontro das personagens.

O Tao do marxismo

Certos pensamentos são como os burocratas, teriam que possibilitar a produção, mas, ao invés disso, eles a dificultam. Essa observação de Brecht se refere a tudo o que “O Método Brecht”, de Fredric Jameson, não faz: não se serve de generalidades, não proclama empecilhos, não foge do problema, não hiperestima o estágio atual do capitalismo. Continue lendo “O Tao do marxismo”

Fragmento sobre Jacobbi

Por muito tempo de sua vida, Ruggero Jacobbi  pensou que era “alguém de passagem, alguém provisório” no teatro. Vindo das letras, da estética filosófica, do interesse por cinema, ele demorou a se reconhecer no  mundo das coxias, dos atores, e das expectativas do público. Mundo, de qualquer modo, sempre estranhável. Foi, entretanto, graças a essa atitude de inadaptação, no que ela tem de recusa às eternizações (tendência que atuava nele como uma qualidade distanciadora das coisas prontas), que Jabobbi contribuiu – talvez mais do que ninguém – para a radicalização crítica do moderno teatro brasileiro. Continue lendo “Fragmento sobre Jacobbi”

Premiações

Ópera dos Vivos quase pôs fim ao tabu das premiações que paira sobre a Companhia do Latão. Foram, salvo engano, 5 indicações. Felizmente, as esclarecidas comissões tiveram o bom senso de não nos premiar. Em 15 anos de existência, o Latão só teve algum reconhecimento desse tipo em Havana, dado pela União dos Escritores e Artistas de Cuba. Por aqui, nunca, nada. Continue lendo “Premiações”

Tipos do jornalismo atual (notas para personagens)

editor neotropicalista é a encarnação do ideal do “criticar aderindo e aderir criticando”.Vai a todas a festas, mas se sente como um antiburguês no meio dos burgueses, um subversivo que esparrama graxas avançadas nas engrenagens da Estrutura. Continue lendo “Tipos do jornalismo atual (notas para personagens)”

Uma cena de kabuki

 Assisti anos atrás a um ensaio de uma companhia japonesa de teatro kabuki, comandada pelo ator Nakamura Kanzaburo XVIII. O nome indica a tradição dinástica, bem como o primeiro dos nomes do grupo se refere ao imperador atual:  Heisei Nakamura-za é este coletivo de jogo cênico variado, entre o melodrama bruto e a farsa coreográfica, que mistura estilos teatrais, da convenção metonímica ao realismo cru, talvez o que mais próximo se encontre hoje da antiga cena elisabetana: organização cultural aristocrática e teatralidade popular. Essas fotos foram feitas por mim, naquele maio de 2008, na Casa das Culturas do Mundo de Berlim. A mulher mutila o própria rosto com um ferro em brasa (evidentemente de madeira, avermelhada no batom). O efeito da carne-viva só não era menos notável do que a capacidade de estilização trágica desse ator especializado em papéis femininos (onnagata). Desconheço seu nome.  

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