A metafísica do “contemporâneo” em arte

Há mais de 30 anos, parte do teatro considerado experimental reproduz diversos padrões formais, numa espécie de cartilha gasta de recursos cênicos. Como justificativas ou legitimações desses estilemas, foram construídas diversas supostas teorias, quase todas elas amparadas na recusa pós-estruturalista à racionalidade. As teorias, na verdade arrazoados poéticos, variam nos termos chave (“paisagem de sonho”, “dinâmica volitiva”, “não-duplicação”, “anti-mimético”, “performatividade”) conforme o autor que fundamenta a condenação das “grandes narrativas”.  Mas têm um fundo comum: o culto idealista à chamada PRESENÇA, entidade abstrata que palpita no seio de outra sentença feita – a necessidade de uma “arte contemporânea”. Continue lendo “A metafísica do “contemporâneo” em arte”

Latão no Teatro de Arena

Voltamos a ocupar o Teatro de Arena, 15 anos depois. Foi aqui o início do Latão como projeto de aprendizado, depois das intuições de Ensaio para Danton. Reencontro o jornaleiro da avenida em frente: o rosto mudou pouco, mas traz os cabelos mais escuros. O funcionário que cuidava da infra-estrutura e pintura no passado, o Chico, segue na mesma tarefa. Conta-me  comovido que seus filhos estão na faculdade. Sinto uma alegria de voltar ao palquinho de quatro por seis, agora ensaiando com 9 atores em ação simultânea e tendo que modificar traçados de Ópera dos Vivos. A peça ganha novo sentido neste lugar onde eu recebia de Fernando Peixoto sugestões de leitura sobre Brecht, onde vi Zé Renato partir, onde fomos obrigados, na primeira grande faxina da sala, a desmistificar o trabalho do artista. No sobrepiso atual, duas placas recordam os nomes de Reinaldo Maia e Augusto Boal. O que nos move pelo teatro? Penso neles. Ontem no fim da noite noite, depois do ensaio, Carlos Escher e Nenê pintavam cenários e discutiam a necessidade de outra”demão” após a secagem. Da porta que se volta para o centro de São Paulo, vi na imagem do teatrinho de Arena vários tempos. Hoje abriremos as portas. A ocupação atual tem a finalidade de reunir gente animada, com vontade de aprender. Batizei assim nossa tentativa de “escola”: Núcleo de Estudos Anatol Rosenfeld. Razões de amor ao pensamento. Começo de canto é assobio.

Gogol e a arte histórica

Em Inspetor Geral (Revizor), de Gogol, a sátira se amplia até o grotesco.  Mesmo quando o autor se vê obrigado ao esquema da intriga cômica, o desenvolvimento convencional não atrapalha a vida torta dos tipos. Nos contos e romances, mais livres da tradição formal (sempre autoritária no mundo do teatro), Gogol foi ainda mais genial. Na fantástica narrativa de O retrato, encontro uma síntese de sua visão de arte, atribuída a uma das personagens, um pintor fora do comum: “Era um homem notável sob muitos aspectos. Um artista como poucos. (…) Um nobre instinto fazia-lhe sentir em cada objeto a presença de um pensamento. Descobriu sozinho o sentido exato dessa expressão, ‘a pintura histórica’. Ele intuia a razão pela qual se pode chamar assim a um retrato, a uma simples cabeça de Rafael, de Leonardo, de Ticiano ou Correggio, enquanto que um painel imenso de temática extraída da história pode não passar de um ‘quadro de gênero’, apesar de todas as pretensões do pintor a uma arte histórica.”

Uma conversa sobre crítica

DANIELE AVILA – Eu queria te fazer uma pergunta sobre crítica. Acho que o trabalho de vocês pode ser associado aos termos “político” e “pedagógico”, de alguma maneira. E por isso talvez você possa me ajudar a pensar sobre isso: em que medida a crítica pode ou deve ser pedagógica? E o que falta, ou faltaria – eu tenho a impressão de que falta – para a crítica ter uma dimensão política forte?

SÉRGIO DE CARVALHO – Eu tenho uma relação contraditória com a crítica teatral. Eu fui crítico de jornal, de O Estado de São Paulo, por um período curto nos anos 90. Por uns dois anos eu escrevi crítica. Como eu já era dramaturgo, eu evitava espetáculos de São Paulo, escrevi mais sobre montagens de fora. Dou aula ainda hoje na USP na área de crítica. E a Companhia do Latão é um grupo de teatro que tem uma trajetória de briga com críticos. Continue lendo “Uma conversa sobre crítica”

Processo P (nota sobre Chaplin)

Assistimos a algumas cenas de Chaplin como modelo de trabalho nos ensaios do Processo P. Mesmo nos filmes anteriores ao tipo Carlitos, está em jogo uma personagem abúlica, de vontade precária, a quem o mundo das coisas surge como ameaçadoramente vivo. A porta do carro batida com força volta nas costas do bêbado, o aquário de peixes abre sua boca estática para engolir a perna de quem pula a janela, o tapete de urso olha para o sujeito como que duvidando de sua humanidade.  As coisas se animam, em grotesca dinâmica fetichista, diante do homem  coisificado, patético. Tudo faz lembrar os manuscritos do jovem  Marx. A vida subjetiva e objetiva atravessada pela reificação, como em Lukács de História e Consciência de Classe, num mundo aquém dessa consciência. A complexa tarefa do ator é compreender a medida da idéia fixa, a um tempo vivida e exposta de modo narrativo. Siderada, a personagem se mantém à beira do colapso, entre a alienação extrema e a recusa pasma ao estrago. A salvação cômica surge no detalhe negativo, realizado com intensidade existencial: o empurrão imprevisto, o pãozinho esfregado na gordura da panela  quando tudo parecia sem solução.

Começo de ensaio (Nota 1, processo P, 2012)

Iniciamos ontem os ensaios de um novo trabalho. Adoto o texto P como ponto de partida. Os primeiros improvisos serão dedicados a constituir as forças mediadoras: formais e temáticas. Como base para a ação central da peça, é preciso recriar seu contexto, seu conjunto narrativo, suas condições históricas. Adiarei por algum tempo o desenvolvimento de papéis. Ao radicalizarmos a compreensão dos aspectos gerais do material, numa perspectiva coletiva, podemos modificar a peça segundo nossos interesses atuais. Quero ampliar o gosto de todos pelas figuras que aparecem pouco mas devem distanciar o caso central e inscrevê-lo numa relação com o mundo do trabalho. A perspectiva deve ser gestual. Assistiremos cenas de Chaplin como modelos. É preciso cultivar a imaginação de grupo e a capacidade da equipe se divertir com o assunto, de modo a combater a expectativa de resultados. Criaremos gestos do Brasil, que podem vir, inclusive, a nos levar para longe do texto P, no sentido de outra peça. Faremos exercícios de realismo e de atitude narrativa, desenvolvidos de modo experimental, sobre as questões críticas da pesquisa. A composição de gestos vivos da história nos levará ao encontro das personagens.

O Tao do marxismo

Certos pensamentos são como os burocratas, teriam que possibilitar a produção, mas, ao invés disso, eles a dificultam. Essa observação de Brecht se refere a tudo o que “O Método Brecht”, de Fredric Jameson, não faz: não se serve de generalidades, não proclama empecilhos, não foge do problema, não hiperestima o estágio atual do capitalismo. Continue lendo “O Tao do marxismo”

Fragmento sobre Jacobbi

Por muito tempo de sua vida, Ruggero Jacobbi  pensou que era “alguém de passagem, alguém provisório” no teatro. Vindo das letras, da estética filosófica, do interesse por cinema, ele demorou a se reconhecer no  mundo das coxias, dos atores, e das expectativas do público. Mundo, de qualquer modo, sempre estranhável. Foi, entretanto, graças a essa atitude de inadaptação, no que ela tem de recusa às eternizações (tendência que atuava nele como uma qualidade distanciadora das coisas prontas), que Jabobbi contribuiu – talvez mais do que ninguém – para a radicalização crítica do moderno teatro brasileiro. Continue lendo “Fragmento sobre Jacobbi”